Trabalho híbrido Trabalho remoto

CEO feudal – uma espécie em extinção?

Gerenciar a equipe remotamente é diferente de quando estamos todos no mesmo ambiente: o novo contexto exige que os líderes exercitem outras habilidades, reinventem os processos e repensem a maneira como ajudam seus colaboradores a atingir seus melhores resultados.

BoxOffice
02/08/21

Suzy Hazelwood / Pexels

Por Roberta Carvalho de Souza, CEO e Co-Founder BoxOffice

Gerenciar a equipe remotamente é diferente de quando estamos todos no mesmo ambiente: o novo contexto exige que os líderes exercitem outras habilidades, reinventem os processos e repensem a maneira como ajudam seus colaboradores a atingir seus melhores resultados. É um desafio sem precedentes, mas já atingimos o ponto sem retorno: saber navegar nesse cenário entrou definitivamente para o pacote de atributos necessários para o que eu vou chamar aqui de CEO atual.

Não imagine que o CEO atual surgiu junto com a pandemia. Em ritmo um pouco mais lento, as companhias já vinham percebendo que flexibilidade é o benefício mais precioso que poderiam oferecer aos seus colaboradores. E em uma corrida cada vez mais acirrada pela inovação, sai na frente quem oferece condições mais atrativas para seus preciosos talentos.

Porém, lamento informar: o novo nem sempre vem para todos. Existem aqueles que se apegam ao seu modus operandi, que se apegam à burocracia, que confundem “ter muito trabalho” com “fazer um trabalho bem-feito” e que, pior ainda, não abrem mão de controlar de perto sua equipe. Você conhece alguém desse tipo? Eu conheço vários e, neste texto, vou chamá-lo de CEO feudal.

Ok, confesso ter sido um deles por anos – e não é à toa: eles estão em todos os lugares, desde as multinacionais ao boteco perto de casa. Eles transitam entre todas as camadas da sociedade – não é privilégio dos endinheirados ou do alto escalão. Afinal, o CEO feudal não é exatamente um cargo, um CNPJ e tampouco a quantidade de terras que uma pessoa possui; o CEO feudal é uma mentalidade que influencia a maneira como a pessoa trabalha ou lidera.

Para compreender o que eu quero dizer com “CEO feudal”, vamos voltar às aulas de História. De acordo com Jacques Le Goff, um dos principais estudiosos da Idade Média, o Feudalismo foi um sistema de organização econômica, social e política baseado nos vínculos de homem a homem, no qual uma classe de guerreiros especializados – os senhores –, subordinados uns aos outros por uma hierarquia de vínculos de dependência, domina uma massa campesina que explora a terra e lhes fornece com que viver. Esse modelo era baseado na terra e, por meio dela, constituíam-se a atividade econômica e a estrutura social. Já os feudos eram grandes propriedades de terra onde se baseavam as relações sociais e econômicas durante a Idade Média.

Fazendo uma analogia com o momento atual, o CEO feudal é um líder que exerce domínio sobre a dinâmica dos colaboradores, defende o escritório como centro social e centro da produtividade da empresa e da vida profissional da equipe e vincula a presença física ao recebimento do salário e dos benefícios. 

O CEO feudal acredita na ideia de que horas trabalhadas são sinônimo de resultados; de que colaborador sentado na sua estação de trabalho, dentro da sede da empresa, é sinônimo de produtividade e lealdade.

Esse tipo de chefe é dependente de ter as pessoas à sua volta, precisa de respostas imediatas, de tapinha nas costas. Acreditam que as atividades demoram mais quando pessoas estão remotas, querem retorno imediato.

Para ele, pessoas ocupadas ou sobrecarregadas são pessoas produtivas. Acredita que se reunir todos os dias em um único lugar estimula a produtividade, a inovação e a camaradagem.

Mesmo após quase um ano e meio de trabalho adaptado para o formato remoto (apesar de ainda termos muito o que aperfeiçoar), muitos chefes ainda sonham com o retorno ao escritório tradicional, com a equipe inteira confinada em suas baias das 9h às 18h, com reuniões não exatamente produtivas – e com os desabafos insatisfeitos no café revelando o quanto esse modelo não faz mais o menor sentido para muitos.

O que esse chefe não admite é que nada disso tem a ver com produtividade, mas, sim, com exercer o controle. Ele não está interessado em saber se o time está em um ambiente agradável, contanto que ele possa exercer a vigilância constantemente. Ele não faz ideia de que condições mais flexíveis deixam o funcionário mais à vontade para ser produtivo à sua própria maneira.

Ok, também não queremos desalojar todos os escritórios para derrubar o feudalismo corporativo e proclamar em seu lugar a república dos trabalhadores nômades. Afinal, ainda somos animais sociais – e aprendemos muito com as trocas de experiências em grupo. No fim das contas, uma empresa ainda é um punhado de pessoas que dividem tarefas em nome de um objetivo comum, e a cultura gerada a partir dessas interações é justamente o que define a identidade dessa empresa.

Essa é a principal justificativa apresentada pelos CEOs feudais por aí. Eles dizem que a troca de experiências entre os colaboradores que ficam sentados próximos fica afetada se adotar o trabalho remoto. Outros dizem que a aprendizagem por observação diminui, que funcionários novos precisam estar presentes para aprender com os demais e absorver a cultura da empresa.

Temos aí um chefe que não apenas é um CEO feudal como também está completamente fechado à inovação. Ele enfatiza mais os desafios que as vantagens – e é incapaz de pensar em maneiras diferentes de resolver as coisas.

Mal sabe ele que nem tudo na vida é oito ou oitenta, que não é preciso atirar a chave do escritório no rio Tietê. Em primeiro lugar, o trabalho remoto não precisa ser obrigatoriamente home office: existem alternativas muito mais eficientes para se trabalhar com toda a infraestrutura necessária e sem as distrações típicas do ambiente doméstico – seja em Hubs e espaços de coworking, seja em Miniescritórios autônomos espalhados pela cidade, inclusive dentro das cafeterias.

Em segundo: o escritório continua lá, disponível para quem precisar, só não precisa ser visitado todos os dias. A equipe convive por comodidade, por afinidade – e não por obrigação.

Dessa forma, o escritório se torna um agradável ponto de convívio, e não um lugar aonde você vai por obrigação. Os colegas se encontram para trocar idéias, para compartilhar experiências – não para conviver por obrigação.

Naturalmente, isso exige uma maturidade que vai sendo construída com o tempo através da ajuda de ferramentas tecnológicas – mas não vá pensando que apenas por parte da equipe. O CEO feudal precisa compreender que “gestão” e “controle” não são sinônimos – da mesma forma que o colaborador precisa aprender que “flexibilidade” não combina com “procrastinação”.

Porém, o susto que tomamos com a pandemia, quando o home office acabou se tornando regra da noite para o dia, nos mostrou que, sim, somos plenamente capazes de nos adaptar aos novos tempos – quer dizer... quase todos nós: alguns, como o CEO feudal, ainda sonham com os bons tempos de outrora. Só nos resta perguntar: bons para quem?

O bonito do Futuro do Trabalho é que ele será plural: nem só escritório, nem só homeoffice. Haverá um portifólio de soluções disponíveis para a empresa e o profissional escolher. E muitas ferramentas tecnológicas – como a nossa plataforma - para ajudar na gestão das equipes distribuídas.

E você? Prefere permanecer com a mentalidade do CEO feudal, mantendo a rigidez do modelo tradicional sem flexibilidade para ninguém, ou adotar a mentalidade do CEO atual, disposto a aprender novas formas de gerenciamento de equipes remotas em locais distribuídos, reinventando processo até encontrar a melhor versão para o sucesso dos seus negócios?

Uma coisa é certa: o tempo não para, e o que não serve mais vira peça de museu – ou capítulos de um livro de História. Era uma vez um escritório.